Revisão: Invasões germânicas e formação do feudalismo

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Pesquisa Histórica: O Império Romano não acabou em 476

O Império Romano não acabou em 476
Em entrevista exclusiva, o professor Chris Wickham, da Universidade de Oxford, apresenta uma nova interpretação da passagem da Antiguidade clássica para a Idade Média
Phil Sayer/Univerdidade de Oxford
Wickham: “A mudança para uma forma de governo ‘medieval’ foi um processo muito mais lento do que os historiadores pensavam há 50 anos”

O professor Chris Wickham, do Departamento de História da Universidade de Oxford, é hoje um dos mais respeitados estudiosos da chamada Antiguidade Tardia, período que marca a passagem da Era Clássica para a Idade Média. E determinar as diferenças entre esses dois mundos é a grande questão que orienta suas pesquisas. Em 2005, ele apresentou o resultado de suas investigações em um livro que causou grande impacto entre os especialistas da área: Framing the Early Middle Ages: Europe and the Mediterranean, 400-800 (Enquadrando a Alta Idade Média: A Europa e o Mediterrâneo, 400-800, inédito no Brasil).

Na obra, Wickham analisa as diferentes transformações pelas quais as várias províncias do Império Romano passaram entre os anos 400 e 800 para buscar novas respostas para uma velha pergunta que os historiadores se fazem desde o século XVIII: quando termina a Antiguidade clássica e quando começa a Idade Média. Ao comparar a estrutura socioeconômica, o sistema de arrecadação de impostos e as formas de governo que vigoraram na Europa e no Mediterrâneo ao longo de quatro séculos, ele chega a uma conclusão que questiona a periodização apresentada pela maioria dos livros didáticos: segundo ele, o Império Romano não acabou em 476. Ele explica por que nesta entrevista exclusiva para História Viva.

História Viva – A maioria dos livros didáticos apresenta o ano de 476 como um marco para o fim da Antiguidade e o início da Idade Média. O senhor concorda com essa periodização?

CHRIS WICKHAM – Não, eu discordo por dois motivos. Em primeiro lugar, porque o ano de 476 é a data da queda do último soberano do Ocidente, mas o Império Romano continuou a existir, sem ruptura. A única diferença é que sua capital passou a ser Constantinopla. No século VI, os imperadores romanos do Oriente continuavam a governar em um estilo muito parecido com o de Constantino no século IV ou mesmo dos imperadores pré-cristãos. Um imperador como Justiniano, que governou entre 527 e 565, tinha basicamente o mesmo estilo de seus antecessores dos cinco séculos anteriores. Além disso, ele governou pelo menos metade do antigo Império Romano do Ocidente, porque reconquistou regiões como a Itália, o norte da África e o sul da Espanha. Em segundo lugar, não há dúvida de que o fim do século V assistiu à substituição do poder romano nas províncias ocidentais pelo de reis que comandavam exércitos formados por grupos germânicos vindos de fora do império. No entanto, mesmo não se autodenominando romanos, muitos desses monarcas continuaram a governar ao estilo romano. A mudança para uma forma diferente, que poderia ser chamada de “medieval”, foi um processo muito mais lento do que os historiadores por muito tempo pensaram e não aconteceu em um ano, uma década ou mesmo um século. Eu vejo uma lenta mudança nas províncias do Ocidente, que vai de 450 a 600, aproximadamente. A partir de então, todo o mundo europeu pode ser chamado tranquilamente de “medieval”, com exceção das regiões que permaneceram sob o controle direto do Império Romano do Oriente.

HV – O senhor afirma que essa mudança é marcada por uma transformação do sistema de arrecadação de impostos. Como isso ajuda a diferenciar o mundo antigo do medieval?

WICKHAM – No Império Romano, o poder público – exército, sistema judiciário etc. – era financiado pela arrecadação de impostos, como acontece hoje. A coisa mais cara na época do Baixo Império Romano era o exército. E quando as tribos germânicas conquistaram as diferentes províncias do Ocidente eles passaram a financiar o exército de uma maneira diferente. Na maioria dos casos, eles davam terra aos soldados, em vez de lhes pagar com dinheiro. A ideia de um exército assalariado, portanto, desapareceu, o que acabou com a necessidade de cobrar impostos da população. Isso é parte daquele lento processo que eu mencionei: os reis queriam cobrar impostos, porque todo governante gosta de ter muito dinheiro, mas, quando você não tem de pagar o exército, que consome 60% do orçamento público, os impostos se tornam menos necessários. Quando isso acontece, você não precisa de tantos oficiais e burocratas para organizar o sistema de arrecadação, e há uma lenta involução no grau de complexidade do Estado. Esse processo está quase concluído por volta de 600. Então eu acho que o financiamento do exército é uma das mudanças cruciais que aconteceram nesse período.

HV – Como podemos interpretar as invasões bárbaras a partir dessa nova perspectiva do fim do Império Romano?

WICKHAM – As invasões bárbaras claramente aconteceram. Quando você tem um rei da Espanha que se autodenomina rei dos godos, ele é o líder de um povo que invadiu o império. E não há problema em dizer isso. Mas o rei dos godos poderia ter criado um sistema de governo mais próximo do romano. Ele poderia ter dito “eu tenho esse exército godo, eu vou remunerá-lo da forma que os romanos fazem, vou manter 100% do sistema econômico romano”. Os ostrogodos ainda fizeram isso na Itália por 40 anos, mas nenhum outro rei bárbaro tentou manter esse sistema, o que é muito significativo, pois mostra que o mundo pós-romano é diferente do romano. É bem diferente do que aconteceu na China: todas as vezes que os bárbaros invadiram a China – o que ocorreu nos séculos III, VI, XI, XII, XIII – eles preservaram as formas de organização do Estado chinês e adotaram o estilo tradicional de governo. Assim, o Estado chinês mudou bastante ao longo do tempo, mas nunca se desintegrou. A via chinesa mostra, portanto, que, mesmo com invasões bárbaras, pode haver uma continuidade estrutural de uma determinada forma de Estado. É a descontinuidade que marca o Ocidente romano.

HV – A mudança no Ocidente romano, portanto, pode ser descrita como a passagem de um único Estado centralizado para um conjunto fragmentário de Estados?

WICKHAM – Exatamente.

HV – Por outro lado, alguns historiadores, como o francês Jean Durliat, defendem uma continuidade do Baixo Império Romano até o fim do século IX. O que o senhor acha dessa tese, que se opõe à ideia da ruptura total?

WICKHAM – Eu acho que Jean Duliart está completamente enganado. É interessante, no entanto, que ele defenda a continuidade usando o mesmo tipo de argumento que eu mencionei. Ele argumenta que o sistema de arrecadação de impostos se manteve após a queda do Império Romano do Ocidente, o que é uma linha de pensamento útil, mas eu acho que ele lê as fontes de forma totalmente errada. Ele cria uma série de razões para se acreditar que as fontes que todos os outros pesquisadores acreditam tratar da posse da terra se referem, na verdade, à arrecadação de impostos. E ele não conseguiu provar isso. Eu acho que todos os elementos da sua argumentação podem ser considerados imprecisos, mas eu respeito a forma como ele argumenta.

HV – Então, apesar das mudanças de interpretação das fontes, nós ainda podemos falar da queda do Império Romano do Ocidente e das invasões bárbaras?

WICKHAM – Sim, podemos. Mas é um processo muito mais lento do que os historiadores pensavam há 50 anos.

por Bruno Fiuza, editor de História Viva

Fonte: História Viva

As crises do Império Romano (Parte 2)

Desafios enfrentados pelo Império Romano

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Como vemos no mapa, o Império era muito extenso e mantê-lo protegido ficou muito caro, pois era necessário um exército numeroso e bem preparado, uma poderosa administração pública, além de uma boa infraestrutura constituída de estradas, muros de proteção, etc.

Para minimizar o problema, algumas medidas foram tomadas como, por exemplo, dar mais autonomia às administrações provinciais e contratar estrangeiros (povos germanos) para o exército. Em troca da participação no exército, os mercenários estrangeiros recebiam soldo ou terras nas fronteiras do Império. A seguir, vamos entender por que essas decisões não foram suficientes.

Havia profundos problemas! Eram eles:

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  • Crises políticas: sucessões marcadas por guerras;
  • Colapso do sistema escravista: com o fim das conquistas perde-se a principal mão de obra;
  • Problemas econômicos: inflação elevada, altos impostos, preços elevados e grandes despesas do governo;
  • Dificuldade em manter a segurança das fronteiras do Império;
  • Difusão do Cristianismo;
  • Invasões Bárbaras.
Você deve estar se perguntando, “Mas quem eram os bárbaros?”. Vamos entender!
BARBARES_(FRANCS_WISIGOTH_BEram chamados de “bárbaros” todos os povos que viviam fora da fronteira do Império Romano. Portanto, bárbaros eram todos aqueles povos que não falavam o latim, a língua oficial de Roma, e não partilhavam da cultura romana. Os grupos bárbaros eram:
 – Tártaros-mongóis: hunos, turcos, búlgaros, húngaros (magiares);
 – Eslavos: russos, poloneses, tchecos e sérvios;
 – Germanos: visigodos, ostrogodos, hérulos, anglos, saxões, francos, lombardos e vândalos.
A vida em sociedade destes povos era bem diferente da vida dos romanos! Talvez por isso, os romanos estranhassem tanto a presença desses povos no Império. Perceba suas características:
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  • Economia sem moeda e natural;
  • Caça, pesca, saque, pastoreio, agricultura rudimentar;
  • Propriedade coletiva da terra;
  • Dividiam-se em tribos;
  • Sociedade ágrafa (sem escrita);
  • Direito consuetudinário (baseado nos costumes);
  • Religião Politeísta (vários deuses);
  • O contato com o Império Romano fez surgir a propriedade privada da terra e as desigualdades sociais.

As crises do Império Romano (Parte 1)

Na aula passada, relembramos um pouquinho do que estudamos no 6º ano. Para quem faltou a aula ou quer entender melhor, vamos viajar para o Império Romano, no  século III.
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Mapa do Império Romano

O império Romano foi um dos grandes Impérios do Mundo Antigo. Ele surgiu na Península Itálica, na cidade-estado de Roma e, a partir do ano 100, aproximadamente, conquistou parte da Europa, o norte da África e a região do Oriente Médio, na Ásia. Contudo, após a Pax Romana, período de desenvolvimento e harmonia, considerado o auge do Império, teve início o seu declínio.

Como o Império Romano era mantido? Como se sustentava?

A sustentação do Império era garantida pelos os saques às riquezas de outros povos, a cobrança de tributos e o trabalho escravo alcançado com as conquistas territoriais. Mas não era fácil. Havia grandes dificuldades para enfrentar as revoltas e tentativas de emancipação dos povos conquistados. E com o passar do tempo a arrecadação de impostos diminuiu, o que dificultava o pagamento do Exército.

Outros problemas…

Os séculos III e IV são marcados por conflitos internos e guerras civis, causados pelas disputas de sucessão de governantes, responsável pelo enfraquecimento do poder do Império e a defesa das fronteiras constantemente invadidas pelos povos bárbaros – europeus, árabes e persas, que passaram a conquistar regiões então submetidas a Roma.